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Do mIRC ao Flash: aprendendo a programar sem saber que era isso

Antes de saber o que era HTML, antes de saber o que era programação, eu já estava programando. Só não sabia disso. Era a época do mIRC, e o que eu queria era simples: fazer meu cliente de IRC ficar do jeito que eu imaginava.

Dialogs, aliases e PWs

Quem usou mIRC lembra: dava pra criar dialogs (janelas próprias, com botões, campos de texto, imagens), aliases (comandos que você inventava) e PWs — picture windows, telas customizadas que rodavam dentro do próprio cliente. Eu ficava horas mexendo em arquivo .mrc, testando, quebrando, testando de novo.

Se você usou mIRC e não entendeu nada, vou simplificar: sabe aquelas risadas com degradê, enfeites? Ou algum comando que você digitava /away mensagem_aqui? Isso eram aliases (atalhos). Se usava ScoopScript ou CyberScript por exemplo, ele já vinha com suas próprias dialogs (janelas - para não precisar fazer tudo por código).

Só muito depois eu fui entender que aquilo tinha nome: on TEXT era literalmente um listener de evento. Um alias era uma função. As variáveis que eu guardava pra lembrar quem tinha entrado no canal, ou pra montar uma mensagem automática, eram… variáveis mesmo, com escopo e tudo. Eu tomava decisões condicionais o tempo todo — “se a pessoa disser isso, responde aquilo” — sem jamais ter ouvido a palavra “condicional” na vida.

Não tinha curso, não tinha Stack Overflow, não tinha IA nenhuma pra perguntar. Tinha um arquivo de ajuda do próprio mIRC e fórum de gente tão early-adopter quanto eu. Aprendi lendo script de outro, quebrando o meu, e comparando os dois até entender por que o meu não funcionava.

A internet “de verdade”

A internet como a gente conhece hoje eu conheci no Netscape Navigator, rodando Windows 95. Foi ali que fiz minhas primeiras páginas — no FrontPage, com aquele WYSIWYG que gerava um HTML digno de arrependimento, e no Photoshop 5 pra cortar imagem e fazer fatiamento de layout em tabela. Mas o que realmente me hipnotizava não era a página estática. Era o banner animado. Aquilo rodando em Macromedia Flash parecia mágica: layers, timeline, keyframe, um negócio se movendo sozinho na tela.

Eu não sabia nada de programação “de verdade” ainda. Mas eu já tinha o instinto: via algo funcionando, queria abrir e entender como. E, na falta de curso, abria mesmo — o próprio arquivo, o próprio código, e ia cutucando até quebrar e consertar.

O que isso me ensinou (e eu só entendi anos depois)

Hoje, olhando pra trás, dá pra ver claramente: aquele período todo — dialog do mIRC, tabela no FrontPage, timeline no Flash — foi onde eu construí o reflexo que uso até hoje pra qualquer tecnologia nova. Não é “vou fazer um curso de tal coisa”. É “vou abrir, vou mexer, vou quebrar, vou entender por que quebrou”. Isso é basicamente o que hoje chamam de vibe coding, só que sem IA nenhuma me segurando a mão — cada erro custava horas de tentativa e erro manual.

Também é curioso perceber que os conceitos fundamentais não mudaram: evento, variável, condicional, função. Só as roupas mudaram — hoje é JavaScript, é um framework, é um agente de IA escrevendo o código por mim. Mas a lógica por trás é a mesma lógica que eu já tropeçava sozinho, aos 15 e poucos anos, tentando fazer meu cliente de IRC responder “oi” quando alguém entrava no canal.

Tem uma continuação boa dessa história — o dia em que aceitei uma vaga de “webdesigner” em 2004 achando que sabia o suficiente de HTML e tabela, e descobri no primeiro dia que o site inteiro era em Flash. Mas essa fica pra outro post.

Você também teve uma fase “pré-programador” dessas, mexendo em algo sem saber que era código? Qual foi a sua?